O clarão, o calor e a tragédia: a história de dois sobreviventes da bomba nuclear

Chikako Tabuchi e Takashi Morita, sobreviventes da Bomba Atômica (Foto: Matheus Misumoto)

6 de agosto de 1945. Era uma manhã de sol em Hiroshima. Todas as escolas estavam fechadas por causa da Segunda Guerra Mundial. Os estudantes foram recrutados para auxiliar na defesa e na segurança do país. Por conta dos conflitos, a população carecia de comida.

Enquanto os homens estavam no front de batalha, a jovem Chikako Tabuchi, de apenas 14 anos, ajudava a derrubar casas para evitar que futuros incêndios se alastrassem pela cidade.

Não muito distante dela, perto do rio Ota, o policial militar Takashi Morita fazia sua ronda. Ele chegara no dia anterior, depois de presenciar um bombardeio com bombas napalm que havia deixado 100 mil mortos em Tóquio.

Foi quando aconteceu. O relógio marcava 8h15. O avião Enola Gay largou a bomba no centro de Hiroshima, que nunca chegou a tocar no solo. Ela explodiu a 580 metros do chão, e a 1,3 km de onde Morita estava. Foi o “pikadon”, um clarão seguido de um som estrondoso de um trovão e uma onda de calor que arrasou tudo a sua volta.

Após o clarão, tudo ficou escuro. O céu ensolarado deu lugar a nuvens e uma chuva preta e ácida. E junto veio o caos. Na hora da explosão, Chikako usava uma calça larga e um uniforme para trabalhar, que queimaram com o calor da bomba:

– Do avental, só sobrou o filete de elástico. Não conseguia abaixar ou levantar por causa das queimaduras. A pele se desprendia da carne, parecia uma casca saindo. Todos pareciam fantasmas. Os ferimentos não cicatrizavam, pois não havia remédios. Somente uma ou duas pessoas da minha turma sobreviveram.

Morita, que tinha 21 anos, foi lançado por 10 metros e ficou com as costas queimadas. Até aquele momento achou que estaria salvo em Hiroshima, pois estava distante dos alvos dos bombardeios norte-americanos:

– É indescritível. O cheiro era horrível, de carne humana queimada. Acredito que uma força maior me manteve vivo, mesmo estando tão próximo da explosão. Fiquei sem comer ou beber por três dias, porque tudo estava contaminado com a radiação. Fui para um abrigo improvisado para me tratar das queimaduras.

Estima-se que mais de 70 mil pessoas morrerem instantaneamente naquela manhã de agosto.

Depois da tragédia, os japoneses da região começavam a acreditar que nada iria prosperar no raio de destruição da ogiva nuclear. Morita conta que, após 20 dias do desastre, Hiroshima foi rota de um tufão. Mas o que era para ser mais um desastre acabou virando um momento simbólico:

– A gente acredita que o tufão limpou a cidade, levando a radiação. Falava-se que nada iria nascer ali. E depois disso, flores começaram a florescer na cidade.

Após a explosão nuclear que ocorreu dias depois em Nagasaki, a notícia da rendição do Japão chegou até o policial militar por uma mensagem do imperador. Entretanto, os norte-americanos ainda estavam atentos aos reflexos do bombardeio que devastou as duas cidades:

– Controvérsias existem, mas o exército norte-americano que esteve no Japão proibiu a entrada de qualquer pessoa que não fossem eles para os testes dos efeitos da bomba atômica. Até os jornalistas foram impedidos. Se naquela época o mundo inteiro tivesse visto, provavelmente não teríamos armas nucleares hoje. Já foram feitos vários filmes sobre o assunto, mas o desastre foi muito maior.

Mesmo após os ataques, Morita continuou na profissão de militar até o mês de novembro daquele ano, para cuidar da segurança nacional. Após isso, foi destituído e a corporação deixou de existir.

Os japoneses que sobreviveram ao ataque e, posteriormente, aos efeitos da radiação sofreram com o preconceito. Acreditavam que os filhos iriam herdar todas as sequelas. Mesmo assim, após um ano, Morita casou-se e teve uma filha. E, depois de pouco mais de uma década do desastre, veio morar no Brasil com a ajuda de um amigo. E por aqui ele ficou, assim como Chikako.

O ex-policial militar trabalhou por muito tempo como relojoeiro na rua Augusta, em São Paulo. Há 26 anos, fundou a Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil, responsável pela negociação com o governo japonês pela assistência aos 127 sobreviventes da bomba que imigraram para o Brasil. O governo só ofereceu ajuda para quem ficou no Japão.

Fundou também a Associação Hibakusha-Brasil pela Paz, que faz ações em parceria ações em parceria com a sociedade civil para disseminar a paz e dizer não à guerra e às armas nucleares. “Somos sobreviventes, temos a obrigação de levar o depoimento para pessoas que não vivenciaram”, diz Morita.

Em sua missão de paz e desarmamento nuclear, já participou de uma ação que levou vários sobreviventes em um navio que visitou diversos países durante quatro meses. Recentemente esteve na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, onde aproveitou para fazer seu relato a estudantes da cidade.

Hoje, 65 anos após a devastação de Hiroshima e Nagasaki, o mundo possui armas nucleares suficientes para dizimar a Humanidade inteira por 16 vezes. As ogivas atuais são 16 vezes mais poderosas dos que as que foram lançadas em 1945. A bomba que caiu em Hiroshima possuía 60 quilos de urânio-235, e causou uma explosão equivalente a 13 quilo toneladas de TNT.

Enquanto a atividade nuclear persistir, Morita segue levando a sua triste história e sua mensagem de paz a jovens e interessados. “A educação é importante e que quero chamar a atenção, pois uma orientação errada pode levar a uma tragédia como a que aconteceu em Hiroshima e Nagasaki”, diz.

“Não quero que ninguém passe por isso. Quase todos meus colegas morreram. Todos devem se unir para a paz”, lembra Chikako.

Com 86 anos, o trabalho de Morita segue. Assim como a Chama da Paz permanece viva no Parque Memorial da Paz em Hiroshima, lembrando que ainda há ameaças de aniquilação nuclear no planeta.

Texto de Matheus Misumoto publicado originalmente no informativo Nansei, da Associação Japonesa de Santos

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